A Bienal e a bibliodiversidade

“Lê alto meus versos, / eles são minha ternura / beijando teus lábios.”

O autor dos versos acima, o poeta Luís Antônio Pimentel, ganhou pela primeira vez, aos 99 anos, uma singela homenagem na Bienal do Livro que acontece no Riocentro. O reconhecimento a um dos maiores mestres brasileiros do haicai não veio, porém, dentro da programação oficial da feira, mas partiu das editoras de Niterói, cidade onde ele mora e cultiva discípulos de vida e poesia.

O que se vê na Bienal, de acordo com o roteiro traçado pelos organizadores, é a valorização dos best-sellers, promovendo à condição de verdadeiros pop stars autores de alguns livros que seriam as versões impressas dos enlatados cinematográficos americanos ou dos sucessos efêmeros fabricados pela indústria fonográfica. A vida meteórica de boa parte desses enlatados de papel reflete bem a cultura rasa também promovida hoje pelo chamado mercado editorial – as grandes editoras que pautam a Bienal do Livro e monopolizam as estantes das livrarias.

Surfando na fama, os escritores – nacionais e estrangeiros – contemplados pela programação oficial desfilam cercados de seguranças pelos corredores do Riocentro. Um estilo de vida bem diferente do homem quase centenário que anda calmamente pelas ruas de Niterói, transbordando ternura, poesia e sabedoria.

Homenagear Luís Antônio Pimentel, dando-lhe o nome da praça montada pelas editoras fluminenses no Pavilhão Verde, e publicar os seus belos textos, como tem feito a editora Nitpress nos últimos anos, é andar na contramão do mercantilismo editorial. Não que possamos renunciar às leis comerciais desta nossa sociedade de consumo, mas que falta fazem hoje editores idealistas, patriotas e culturalmente responsáveis, como Monteiro Lobato, José Olympio e Ênio Silveira!

Aliás, os grandes temas nacionais também parecem passar ao largo dos debates naquela que deveria ser a grande feira do conhecimento e das ideias. Coube ainda à Nitpress organizar o único evento – naturalmente na programação paralela – sobre os 50 anos do Movimento da Legalidade, o último grande levante popular brasileiro. Mas, apesar do desprezo do mercado pelas coisas pequenas, são elas talvez as mais capazes de captar a transcendência e a pureza, como num haicai de Pimentel:

“O que é um haicai? / É o cintilar das estrelas / num pingo de orvalho.”

Luiz Augusto Erthal
Publisher da Nitpress

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O artigo acima foi publicado no jornal O Dia de 5 de setembro de 2011, cuja reprodução pode ser vista abaixo:

Veja também o vídeo da homenagem a Pimentel:
Luís Antônio Pimentel recebe homenagem na Bienal do Livro 2011

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