“Manifesto dos Poetas”

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Um documento em defesa da cultura fluminense será apresentado durante o 1º Festival Fluminense de Poesia (FLUP), quinta-feira, dia 29 de abril, em Barra de São João, município de Casimiro de Abreu. O “Manifesto dos Poetas”, como está sendo chamado, conclama escritores e intelectuais a uma releitura da literatura fluminense como forma de afirmação de uma identidade cultural regional. Conheça, a seguir, o texto que será divulgado no FLUP.

“MANIFESTO DOS POETAS”
EM DEFESA DA CULTURA E DA RENASCENÇA DA LITERATURA FLUMINENSE

“Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta.
E nem as canta um mortal!”

“Minha Terra”, de Casimiro de Abreu, em As Primaveras

Às margens de rios nasceram as civilizações seculares: Babilônia, em meio às terras nutridas pelo Tigre e Eufrates; o Egito nas planícies inundáveis do Nilo; a China às várzeas férteis do rio Amarelo. Que outro terreno – senão o fluminense – seria mais seminal para o renascimento da literatura de nosso estado?

Noventa e duas urbes reunidas em torno da pulsação de um peito apenas, o mesmo número de celeiros de cultura a terem suas portas abertas e seus valores postos novamente à vista do céu fluminense – a cúpula sob a qual viceja uma terra livre de preconceitos. Formamos, por assim dizer, um território sem interiores. Pertencemos a um só compartimento, que, parafraseando Euclydes da Cunha, nada mais é do que a base física da nossa regionalidade.
Da camisa aberta o peito, fluminenses de vários quadrantes escreveram as mais belas páginas da nacionalidade. De Campos, a brava terra goitacá, veio Patrocínio romper os grilhões da escravidão; de Niterói, histórica capital e ainda hoje referência cultural de nossa sociedade, Benjamin Constant partiu para assumir a paternidade da República, tendo como arauto Silva Jardim, fluminense de Capivari; Alberto Torres, de Itaboraí, Euclydes da Cunha, de Cantagalo, e Oliveira Viana, de Saquarema, formariam uma tríade sem a qual não haveria o sentimento de brasilidade conforme o sabemos hoje.
Nos campos de batalha, nossos soldados – Caxias à frente – sustentaram a altivez do pavilhão auriverde. O mesmo pavilhão tremula ao lado da bandeira alvianil por todo o território fluminense, mas de modo ainda mais dramático em certas fortificações do lado niteroiense da Baía da Guanabara, que registram uma singularidade reveladora do nosso sentimento pátrio: somos talvez o único estado que aponta os seus canhões contra o próprio peito.
Subi o Imbuhy, o São Luís e o Santa Cruz e vereis suas bocas de fogo viradas para a barra tanto quanto apontadas contra nós, dispostas a nos imolar em defesa da mais brasileira de todas as cidades, o Rio de Janeiro, a capital que defendemos como bastião naturalmente erguido ao seu redor. Foi assim na Revolta da Armada, de onde Niterói emergiu, sob escombros, após meses de canhoneiro incansável, como Cidade Invicta.
Resgatamo-nos, assim, da apatia que reinou após deixarmos de ter a capital do Brasil em nosso seio. Sabemos hoje que Capital sempre foi a urgência de nos apropriarmos de nossa identidade e estima, e da nobre cultura que nos banha.
Recordemos o Rio de Janeiro enquanto firme, materno, imenso e sagrado sítio desde o qual um resgate dos melhores bens nos permitirá, novamente, com propriedade, dizer: “Nunca mais, nunca mais nesta terra/Virão cetros mostrar falsos brilhos./Neste solo que encantos encerra/Livre pátria terão nossos filhos.”*
Falsos brilhos serão, doravante, todos aqueles que interferirem em nosso destino de regressar às raízes e tradições; os verdadeiros – confessamos desde já – sempre foram os acolhidos como cultura material: indústria, artesanato, arquitetura e culinária típica; imaterial, nossos costumes, nossos folguedos, nossa arte, nossa mitologia e, sobretudo, nossa literatura.
Se veraz então a língua dos poetas, saibamos que é a palavra que reúne, agrupa, congrega; que foi um verbo de grandeza que, na origem, uniu, em comunidade, fluminenses do litoral e do interior. Comungar com esta “comum-unidade” é o que faz de uma província, Nação.
O lógos literário, apontador de nosso locus mais autêntico é, então, acalentado por nós como brisa de renovação: uma cultura renasce, uma identidade renasce, o homem fluminense é o que renasce da utopia romântica.
Do mesmo modo que o Velho Mundo viu sua Renascença, também nós buscamos reler, reeleger e nos religar com genuínos laços às raízes.
Assim como a Europa de Dürer e Alberti recorreu à sua ancestralidade, também nós evocamos nossos deuses-lares. – Vinde vós então fantásticos Euclydes da Cunha, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Júlio Salusse, Alberto de Oliveira, Carlos de Laet, José Cândido de Carvalho, Luiz Leitão e todos aqueles cuja palavra viçosa nos faz lembrar de nós mesmos como filhos deste mundo e terra.
Libertos, hoje, da velha missão estratégico-militar, podemos, enfim, voltar as sentinelas da alma aos nossos próprios valores, encontrados em versos da mais rica lira. A capital cujo perímetro importa-nos defender agora é a cultura fluminense, terra fértil de poetas, prosadores, pensadores e demais sonhadores libertários.
É imperativo que todos aqueles que se julgam fiéis portadores da palavra-literária em terras fluminenses se ponham sob o Beta do Cruzeiro do Sul, universalidade apenas possível na singularidade de seu torrão próprio. Tomemos posse de uma herança espiritual nascida da boa e velha cordialidade fluminense; da brisa inspiradora que sopra por entre praias, rios, lagunas, planícies, florestas e os altos píncaros de nossas serranias.
Voltemos, pois, as baterias contra tudo aquilo que tem conspurcado a pureza dessa identidade singular; o sentimento de pertencimento a tudo quanto é belo, heróico e galante na trajetória desse flúmen sublime. Alistemo-nos a esta trincheira e ergamos, uníssonos, uma ode de louvor à cultura fluminense.

Apenas ante as palavras que nos narram é que nos pertencemos.

* Trecho do Hino XV de Novembro,hino oficial do estado do Rio de Janeiro, letra de Antônio José Soares de Sousa Júnior.

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